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caminho da roça

embarco amanhã na hora do almoço, com dois objetivos:

visitar um amigo, que “devo” essa visita já há algum tempo

presenciar um momento importante na vida de outro amigo. o convite por si só já me deixou feliz, por n motivos que não cabem ser escritos aqui, estarei num lugar onde a única pessoa que eu conheço estará ocupada demais, possivelmente estarei “sozinho”, perdido, mas o evento vale.

o estranho é que, apesar da empolgação, felicidade ou qualquer outra coisa em relação à viagem, outros fatores me fazem pensar que eu não ficaria nem um pouco incomodado se o avião caísse

uma ligação

com o intuito de me lembrar aquilo que eu já sabia.

esqueci de propósito.

aprendizado

preciso aprender a não confiar, não criar expectativas, não depositar algo em alguém,  não achar que posso oferecer algo, não sentir falta, não tentar preencher a falta.

e principalmente, ao fazer tudo isso, não esperar nada em troca.

expectativa

é a gente quem cria.

e o outro lado não cumpre, porque não sabe que tem que cumprir, muito menos como.

então quebramos a cara.

mas como explicar?

Nascer

é assumir uma dívida eterna que não foi criada por nós.

Ninguém pediu pra nascer, mas a gente se esforça o máximo possível pra continuar vivo.

Divisas, 1.1

versão nova do texto que já postei aqui. melhorei algumas coisas, modifiquei outras, está mais próximo daquilo que eu quero. devo mexer nele mais um pouco, só não sei quanto.

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– Está vendo aquela janela ali?

O homem de preto apontava para uma janela de vidro que preenchia um terço da parede manchada e destruída. O sol estava se pondo, e refletia um laranja forte no céu, duplicado nos prédios comerciais. A paisagem era linda.

– Do outro lado dela, ali fora, é onde as coisas acontecem.  É lá que as pessoas estão. As oportunidades, as alegrias, os bons vinhos.

Ele se afastou em direção à janela, para me olhar de frente. Apoiou a mão nas minhas pernas amarradas, seu nariz quase tocando o meu. Podia sentir seu olhar fundo dentro dos meus olhos.

– E você aqui, amarrado nesta cadeira? Não acha que tem alguma coisa errada?

Assenti, em partes. O homem de preto voltou para trás da cadeira em que eu estava, me segurou pelos ombros e me empurrou para mais perto da janela.

– Veja como as pessoas andam, apressadas, de um lado para o outro, do trabalho para casa. Como conversam, sorriem. Elas estão satisfeitas. Não é isso que você quer para você?

Assenti, mais uma vez. Sua cabeça estava ao lado da minha, eu sentia seu hálito quente em minha orelha, misturando-se ao suor que me escorria pelas têmporas.

– Elas possuem um bom emprego, um carro na garagem e uma família que as espera na hora do jantar. O mundo lá fora é tão bonito. Por que você está aqui? Preso, com medo.

Fechei os olhos, com vergonha. Não sabia o que responder.

– Suas oportunidades estão lá. Busque-as.

Ele chutou a cadeira e atravessei a janela, quebrando-a. A queda durou uma eternidade. Teria sido o suficiente para ver minha vida inteira passando diante de meus olhos, se eu tivesse uma vida.

Melhor do que ver, eu senti. O sol ainda estava laranja, as pessoas ainda andavam pela rua. Meu rosto foi a primeira parte a entrar em contato com o asfalto, esmagando meu nariz e espalhando pedaços de meus dentes. Depois foram os braços, e a fratura na clavícula.

O homem de preto já estava ao meu lado, agachou-se e levantou minha cabeça pelos cabelos. O sangue escorrendo pela minha face, seu olhar pesado sobre meus olhos vagos.

– Está vendo esse chão? É assim que a realidade nos atinge. Por que você não ficou ali, seguro, do outro lado da janela?

Arrumação

eu contratei um faxineiro, para colocar alguns pensamentos no lugar.
acontece que antes da arrumação, ele bagunça tudo ainda mais.