versão nova do texto que já postei aqui. melhorei algumas coisas, modifiquei outras, está mais próximo daquilo que eu quero. devo mexer nele mais um pouco, só não sei quanto.
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- Está vendo aquela janela ali?
O homem de preto apontava para uma janela de vidro que preenchia um terço da parede manchada e destruída. O sol estava se pondo, e refletia um laranja forte no céu, duplicado nos prédios comerciais. A paisagem era linda.
- Do outro lado dela, ali fora, é onde as coisas acontecem. É lá que as pessoas estão. As oportunidades, as alegrias, os bons vinhos.
Ele se afastou em direção à janela, para me olhar de frente. Apoiou a mão nas minhas pernas amarradas, seu nariz quase tocando o meu. Podia sentir seu olhar fundo dentro dos meus olhos.
- E você aqui, amarrado nesta cadeira? Não acha que tem alguma coisa errada?
Assenti, em partes. O homem de preto voltou para trás da cadeira em que eu estava, me segurou pelos ombros e me empurrou para mais perto da janela.
- Veja como as pessoas andam, apressadas, de um lado para o outro, do trabalho para casa. Como conversam, sorriem. Elas estão satisfeitas. Não é isso que você quer para você?
Assenti, mais uma vez. Sua cabeça estava ao lado da minha, eu sentia seu hálito quente em minha orelha, misturando-se ao suor que me escorria pelas têmporas.
- Elas possuem um bom emprego, um carro na garagem e uma família que as espera na hora do jantar. O mundo lá fora é tão bonito. Por que você está aqui? Preso, com medo.
Fechei os olhos, com vergonha. Não sabia o que responder.
- Suas oportunidades estão lá. Busque-as.
Ele chutou a cadeira e atravessei a janela, quebrando-a. A queda durou uma eternidade. Teria sido o suficiente para ver minha vida inteira passando diante de meus olhos, se eu tivesse uma vida.
Melhor do que ver, eu senti. O sol ainda estava laranja, as pessoas ainda andavam pela rua. Meu rosto foi a primeira parte a entrar em contato com o asfalto, esmagando meu nariz e espalhando pedaços de meus dentes. Depois foram os braços, e a fratura na clavícula.
O homem de preto já estava ao meu lado, agachou-se e levantou minha cabeça pelos cabelos. O sangue escorrendo pela minha face, seu olhar pesado sobre meus olhos vagos.
- Está vendo esse chão? É assim que a realidade nos atinge. Por que você não ficou ali, seguro, do outro lado da janela?